Agosto 16, 2022

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Como Pabllo Vittar e artistas LGBTQ estão liderando a cultura pop brasileira

Quando a drag queen Pabllo Vittar lançou seus singles “KO” e “Corpo Sensual” em 2017, ela provocou reações mistas em seu Brasil natal. Para os fãs de música pop, sua abordagem pop em gêneros regionais do Norte e Nordeste do Brasil foi uma lufada de ar fresco. Para os fãs gays, trans e não-binários – para quem ter uma drag queen como estrela pop brasileira parecia apenas um sonho – Vittar trouxe uma representação há muito esperada. Mas também havia pessoas para quem ver um homem cis-gay se apresentando como mulher, mantendo um nome artístico masculino e cantando para músicas com uma atitude sexy pareciam “demais”. Um bode expiatório era necessário para o desconforto deles: os vocais de Vittar. De celebridades a internautasas alegações de que Vittar não sabia cantar e que seu sucesso era a prova de que o pop brasileiro havia decaído eram suficientes.

Após a apresentação de Vittar de “I Have Nothing” de Whitney Houston no programa de TV brasileiro Altas Horas em janeiro 2018, o cantor de soul Ed Motta viralizou postagem no Facebook elogiando seus registros vocais graves e agudos. Mas ao contrário de Motta, muitos brasileiros permaneceram céticos e desconfortáveis ​​com a crescente presença de Vittar no show business. A supersexualização e a falta de profundidade em suas letras em comparação com a música feita por ícones progressivos e desafiadores de gênero como Ney Matogrosso foram frequentemente citadas para justificar o ódiodizendo que não tinha nada a ver com a identidade de gênero ou sexualidade de Vittar.

De acordo com Relatório Transgender Europe (TGEU), 2018 marcou o 11º ano consecutivo do ranking do Brasil No. 1 para os países com mais assassinatos de pessoas trans – um recorde que o país mantém até hoje. Foi também um ano marcado pela disseminação de fake news e polaridade política que levou à eleição do candidato presidencial de direita Jair Bolsonaro. Um Vittar em ascensão foi finalmente afetado. Relatórios falsos acusando que Opositor de Bolsonaro faria de Vittar o rosto da conta de R$ 50 circulou, levando muitos a jogar seus sentimentos de desgosto em Vittar, pois ela se tornou um símbolo da imoralidade contra a qual os conservadores de direita lutavam. Cada manchete compartilhada sobre Vittar ou sua associação com a política de esquerda era seguida por um ditado: “Agora a Pabllo Vittar foi longe demais” (“Pabllo Vittar foi longe demais agora”). A expressão se tornaria um meme. Mas também, se tornaria verdade.

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Avanço rápido para 2022, quando Vittar toca em festivais internacionais como Lollapalooza Chile e Coachella no meio dela Eu sou a Pablo Tour Global e coleciona colaborações com artistas renomados como Lady Gaga, Thalía, Charli XCX e Rina Sawayama, não há dúvidas de que ela realmente foi longe demais – mas de uma maneira poderosa. E muitos começaram a seguir seu exemplo no Brasil. O sucesso de Vittar abriu as portas para mais cantoras drag queen lançarem ou impulsionarem suas carreiras: Gloria Groove, Aretuza Lovi, Lia Clark, Urias e Potyguara Bardo, para citar alguns. Todos contribuem para formar o que é, sem dúvida, o momento mais próspero para as estrelas pop queer no Brasil.

‘Agora a Pabllo Vittar foi longe demais’. A expressão se tornaria um meme. Mas também, se tornaria verdade.

Artistas queer sempre estiveram entre as forças motrizes da música brasileira através de nomes como Angela Ro Ro, Cássia Eller, Daniela Mercury, Ana Carolina, Cazuza e Ney Matogrosso. A música deles convivia com o ódio LGBTQ+ no Brasil.

Matogrosso, o ícone queer brasileiro mais famoso antes de Vittar, era uma referência óbvia a quem Vittar era comparado no início de sua carreira. Na década de 1970, quando o Brasil estava sob a ditadura militar, a pintura corporal de Matogrosso, as performances dramáticas e o tom vocal (que era considerado muito alto e “feminino” para um homem) eram chocantes. Mas a música que fez com a banda de rock progressivo Secos & Molhados lhe rendeu imenso respeito e aclamação da crítica. A música de Vittar, no entanto, não foi abraçada da mesma forma.

Grande parte da resistência contra pessoas LGBTQ+ nas artes está na crença de que existe “um tipo certo de arte” que uma pessoa LGBTQ+ deve fazer. Sim, artistas como Cazuza, Eller e Matogrosso eram assumidamente queer, mas escreviam letras pensativas elogiadas por intelectuais e brasileiros de classe alta tanto quanto amados pelo público em geral. Em contraste, Vittar faz música pop baseada em gêneros marginalizados das regiões mais pobres do Brasil e canta abertamente sobre sua liberdade sexual através de melodias e letras que visam não muito mais do que apenas pegar os ouvidos das pessoas e fazê-las dançar. E embora ela também lance músicas conscientes e motivacionais como “Indestrutível” e “Amarelo” (uma colaboração com o rapper Emicida e a cantora trans Majur), sua carreira é principalmente um exercício de seu direito de apenas se divertir, independentemente de sua identidade de gênero ou sexualidade. Ela é uma estrela pop em toda a extensão do termo: ela é de e para as massas.

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Não é que pop, música despreocupada ou entretenimento não tenham sido feitos por pessoas LGBTQ+ no Brasil antes. Mas geralmente, essa arte tinha que ser intencionalmente comercializada como humor. Não é por acaso que os artistas trans, não-binários e drag queens de maior sucesso no Brasil costumavam ser comediantes, como Vera Verão ou Nanny People. Seu talento para a comédia pode não estar diretamente relacionado à sua identidade de gênero, mas a falta de espaço para outras formas de arte LGBTQ+ sugeria que essas pessoas só poderiam viver da arte se adotassem a posição de seres risíveis e anômalos. Não foi até muito recentemente que artistas gays, trans e não-binários ocuparam o centro da cultura pop do Brasil com arte e música que se esquivaram dessa bala.

Antes de nomes como Pabllo Vittar tomarem conta do pop brasileiro, a representação queer na música pop era restrita principalmente ao fandom. Fãs queer agitam as comunidades de música online e danceterias no Brasil, mas uma presença tão forte não se refletiu proporcionalmente nos panteões pop que eles cultuavam ou nas pessoas cantando a música que dançavam. A liberdade encontrada na música de cis-divas como Lady Gaga, Beyoncé, Rihanna, Ariana Grande e Dua Lipa agora divide espaço com a música feita no Brasil – com pop e dance music informada por gêneros brasileiros e cantada em português por artistas que representam um amplo espectro de identidades e sexualidades. Nunca a arte LGBTQ+ teve tanta presença e relevância no mainstream pop brasileiro como agora.

Entre as artistas contemporâneas mais completas do Brasil e as principais estrelas do pop, por exemplo, está a drag queen Gloria Groove, persona artística do cantor, compositor e dublador Daniel Garcia. Em 2022, Groove se tornou a drag queen mais ouvida no Brasil e liderou o competitivo gráfico Spotify Top Albums Debut Global com seu último álbum, Lady Daleste. A combinação do Groove de dance music eletrônica com funk brasileiro, combinada com suas performances teatrais e vocais arrepiantes, conquistou o Brasil com sucessos como “Bonekinha”, “Leilão”, “Vermelho” e “A Queda”.

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Mas fora das esferas pop, artistas LGBTQ+ também estão quebrando barreiras. A MPB, ou Música Popular Brasileira, e o rock abrigam a maioria dos ícones gays notáveis ​​da música brasileira. E enquanto os únicos artistas queer nesses gêneros costumavam ser pessoas cis, artistas trans como Liniker, Linn da Quebrada e Majur agora se juntaram à nova geração de artistas da MPB que por acaso são gays, com nomes como Johnny Hooker, Filipe Catto , e Mart’nália.

Em última análise, muito melhorou no Brasil quando se trata de direitos LGBTQ+ nos últimos anos. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a homofobia e a transfobia estariam sujeitas à mesma punição do crime de racismo. E em 2022, a Lei Maria da Penha, que pune agressores domésticos de mulheres, foi considerada aplicável às vítimas de mulheres trans. Ainda há um longo caminho a percorrer em direção ao respeito e representatividade das pessoas LGBTQ+ no Brasil. Mas é difícil dissociar as melhorias legais dos últimos anos com a ascensão de artistas queer na música e na mídia.

Como a crítica infame que se tornou um meme profético para Pabllo Vittar, só podemos esperar que esses novos artistas continuem indo muito longe.